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OBESIDADE E ALERGIAS: o que sua Microbiota Intestinal tem com isso?

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OBESIDADE E ALERGIAS: o que sua Microbiota Intestinal tem com isso?

Nosso longo intestino tem algo como 100 trilhões de microrganismos, a maioria bactérias, mas há também arqueas e fungos. Isso significa que para cada célula humana, nosso corpo alberga 10 microrganismos nas entranhas intestinais. Nossa pele é outro repositório de microrganismos, embora muito menor, mas pode chegar a agrupar um trilhão de bactérias, porém formando um conjunto bem diferente. Pesquisas recentes mostram como esses pequenos aliados são importantes para estimular, treinar e regular nosso organismo. A obesidade e muitas doenças podem estar relacionadas com a microbiota intestinal.

 

Quase 90% das bactérias de nosso intestino são dos filos Bacteroidetes, composto de bactérias Gram-negativas, e Firmicutes, composto majoritariamente por bactérias Gram-positivas, mas a diversidade de espécies é muito grande. Os especialistas acreditam que existam algo como 500 a 1.000 espécies diferentes nos intestinos da população humana, com um genoma combinado de mais de 5.000.000 de genes diferentes, que se expressam na luz de nossas entranhas! Essa multiplicidade bioquímica permite que diferentes carboidratos sejam metabolizados, inclusive muitos dos quais não são reconhecidos por nossas próprias enzimas digestivas. Eles constituem as chamadas fibras solúveis, dentre as quais o melhor conjunto delas na tradição culinária brasileira está presente no caldo de feijão. É justamente assim que esses microrganismos retiram seu sustento, e sua maquinaria enzimática ajuda a assimilar nutrientes e a produzir vitaminas, ao mesmo tempo em que literalmente treina e regula nossos sistemas ligados à imunidade. A microbiota intestinal é tão importante que frequentemente é tratada como um órgão pela clínica médica.

 

Um estudo liderado pela cientista Vanessa Ridaura, da Universidade de Washington em St. Louis, buscou pares de gêmeos monozigóticos nos quais apenas um deles tivesse obesidade. Camundongos criados em condições de esterilidade total foram semeados com as bactérias de cada um dos gêmeos. Os dois grupos de camundongos ganharam massa corporal, mas o ganho de peso de um grupo foi significativamente maior, justamente o que tinha recebido a microbiota do gêmeo obeso. Esse resultado já trouxe muita surpresa, mas ainda mais interessante foi o passo seguinte, pois os dois grupos de animais foram colocados juntos e houve troca de microbiotas espontaneamente, pois esses animais têm hábitos coprofágicos. A partir daí, os ratos obesos deixaram de ganhar massa corporal e emagreceram, porém essa diferença teve significância estatística apenas quando a dieta era pobre em gordura saturada e rica em frutas e verduras, o que seria o equivalente a uma dieta humana saudável. Isso coincidiu com a prevalência de bactérias da ordem Bacteroidales, que inclui o gênero Prevotella, que estava presente de início apenas na microbiota dos camundongos magros.

 

Esse resultado chamou muito a atenção dos cientistas, pois as bactérias intestinais do gênero Prevotella já tinham sido alvo de uma descoberta muito interessante, em uma pesquisa liderada por Carlota de Filippo e Paolo Lionetti, da Universidade de Florença, na Itália. Eles compararam a microbiota intestinal de crianças europeias e de zonas rurais da África, especificamente de Burkina Faso. Eles encontraram nas crianças africanas uma microbiota muito mais rica em bactérias Gram-negativas (Bacteroidetes) em relação às Gram-positivas (Firmicutes), com particular abundância de Prevotella (53%)e de Xylanibacter (20%), e completa ausência desses dois gêneros nas crianças europeias. Essas bactérias têm uma bateria de genes para digestão de celulose e de hemicelulose, formada por cadeias de xilose (uma pentose), ambos compostos presentes nas paredes celulares de vegetais, que as enzimas digestivas humanas são incapazes de hidrolisar. A dieta das crianças daquela aldeia de Burkina Faso é particularmente rica em vegetais e a descoberta trouxe uma nova luz para entender como a dieta modula nossa microbiota intestinal, a qual enriquece a diversidade genômica em ação em nosso organismo. Em suma, somos resultado de co-evolução.

 

Esse desbalanço entre a composição dos dois grandes filos de bactérias em nosso intestino não parece ser apenas uma consequência de um processo de longo prazo. Quando nascemos, nosso intestino ainda não foi colonizado, e é um terreno aberto para microrganismos. Já ao nascimento temos as primeiras sementes que irão prosperar em nosso organismo e o modo de nascimento parece ser determinante. Crianças nascidas em parto normal têm contato com a microbiota vaginal, que se altera significativamente durante a gestação, enquanto as nascidas de cesariana são privadas desse contato inicial.

 

Estudos revelaram que a microbiota intestinal de nascidos de cesariana possui menos espécies do filo Bacteroidetes, desenvolvendo uma microbiota intestinal mais parecida com a de pele da mãe. A pesquisa revelou ainda uma correlação estatisticamente significativa entre a atividade de dois grupos de linfócitos T-helper, um deles ligado à ativação da resposta imune contra bactérias e ativação de anticorpos (Th1). Esses linfócitos amadurecem no timo, que é particularmente ativo em recém-nascidos, e sua atividade mostrou estar diminuída em crianças nascidas de parto cesáreo. Ocorre que os linfócitos Th1 têm ação refreante sobre outro tipo de linfócito similar (Th2), tido como responsável pelo desenvolvimento de doenças alérgicas, como asma e eczema. Essas doenças afetam significativamente mais crianças nascidas de cesariana do que de parto normal.

 

Em suma, a composição da microbiota intestinal de recém-nascidos pode ter uma importância muito maior do que se admite, inclusive para a explicação do fenômeno de morte súbita de bebês, em especial após tratamentos que envolvem antibióticos. Intestinos pouco colonizados são particularmente suceptíveis à rápida multiplicação de bactérias patogênicas, como as do gênero Clostridium, relacionadas ao tétano e ao botulismo. Enfim, brincar na terra, ao ar livre, colocar mãos sujas na boca, talvez sejam hábitos muito mais saudáveis para crianças pequenas do que normalmente se pensa.

 

Enfim, nossos genes definitivamente não são os responsáveis por todas as proteínas e enzimas em ação em nosso organismo, da superfície da pele às profundezas de nosso intestino. Devemos lembrar desse exército de colaboradores, que é muito maior do que nosso próprio plantel celular. Ao escolher sua próxima refeição, não se esqueça deles!

 

 

Referências Consultadas

De Filippo, C. et al. Impact of diet in shaping gut microbiota reveales by a comparative study in children from europe and rural Africa. PNAS 107: 14691-96, (2010).

Hoskin, L. Gut Feeling. The Biologist 61:12-15, (2-13)

Ridaura, V. K. et al., Gut Microbiota from Twins Discordant for Obesity Modulate Metabolism in Mice. Science 341, 1241214 (2013)

Todar K.Normal Bacterial Flora of Humans Todar’s Online Textbook of Bacteriology. Disponível em:

http://www.textbookofbacteriology.net/normalflora_3.html

 

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