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Teoria da Evolução nas Escolas

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Teoria da Evolução nas Escolas

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A maneira como certas denominações evangélicas abordam a questão da teoria da evolução é bem conhecida.  O literalismo bíblico enfrenta problemas não apenas do ponto de vista da epistemologia, mas também no próprio campo teológico. Discuti isso com detalhes em longo artigo, disponível online: https://goo.gl/6rsEkC

O lançamento de “A Origem das Espécies” foi um fato que mudou o curso da ciência mundial. Darwin acompanhou com muita atenção as resenhas de seu livro, que não foram poucas, nem breves e muito menos amistosas como a primeira. Houve uma verdadeira polarização entre aqueles que se viam ligados a uma ideia antiga, a de que os seres vivos tinham uma origem múltipla, nem sempre a ligados a dogmas religiosos, e aqueles que viam relações de parentesco necessárias entre similaridades.

Duas críticas foram, talvez, as mais difíceis de assimilar, tanto assim que obrigaram Darwin a realizar verdadeiro recuo tático na logo na edição seguinte do livro. Antes de explicá-las convém esclarecer a cronologia das edições desta obra.

No dia em que Origem das Espécies tinha sido colocado à venda outras obras eram lançadas, e pelo menos duas delas eram aguardadas pelo grande público com muita expectativa, mostrando que as estratégias de Steve Jobbs não eram de todo originais e John Murray já trabalhava duro na geração de demanda mais de um século e meio antes dele. O livro mais aguardado daquela “fornada” trazia o relato do capitão de um navio que tinha encontrado os destroços de uma expedição que fracassara procurando a chamada “Passagem Noroeste”, uma rota alternativa entre o Pacífico e o Atlântico. A rota é geograficamente tão importante para a marinha mercante a ponto de ter sido explorada há poucos anos, como consequência de uma retração da calota polar ártica, permitindo finalmente uma das primeiras travessias por navios sem aparatos especiais quebra-gelo. A expedição de 1845 fora comandada pelo legendário Contra-Almirante Sir John Franklin (1786-1847), com dois navios que incorporavam as mais inusitadas sofisticações tecnológicas disponíveis à época, e alguns luxos inclusive, como água quente nas torneiras dos aposentos dos oficiais[1].

Os dois navios simplesmente haviam sumido desde 1845, sem que se tivesse notícia de sobreviventes. Diversas expedições foram organizadas pelo governo, mas nenhuma delas tinha conseguido encontrar o que restara dos navios e de seus 24 oficiais e 110 marinheiros. O governo britânico tinha declarado oficialmente desaparecidos todos os que tinham tomado parte, a começar pelo seu comandante, Sir Franklin, instituindo uma recompensa por informações concretas. Uma notícia, obtida por um explorador escocês, John Rae (1813-1893), abalara a opinião pública em 1854, chegando a revoltar os familiares dos desaparecidos, acusado-o de importura com o único propósito de reivindicar a recompensa. Segundo notícias de esquimós Inuit, os sobreviventes teriam resistido por dois invernos polares a custa de carne humana! Sem opções de alimento, teriam passado a devorar as carcaças congeladas de seus companheiros, até que o frio, a desnutrição, escorbuto e outras doenças tivessem selado o paradeiro do último deles. Os Inuit lhe venderam alguns utensílios que tinham recolhido junto dos corpos, inclusive talheres com a marca do faqueiro pessoal de Franklin! Nada restara dos cascos, convertidos em preciosa lenha pelos esquimós.

A viúva de Franklin, que tinha se convertido em personalidade popular, organizou uma lista de doações para empreender nova tentativa de localizar o que poderia ter restado daquela expedição, com a esperança de que algum sobrevivente ainda estivesse vivendo entre as tribos esquimós, sabidamente muito amistosas com estrangeiros. Assim, o modesto navio Fox partira em 1857, sob o comando do capitão Francis Leopold McClintock (1819-1907), e retornaria dois anos depois, em setembro de 1859, com notícias totalmente inéditas.

O público fora informado de que o livro trazia todo o relato desta expedição, que teria encontrado inclusive três dos corpos, ainda com as roupas originais, com uma ilustração da estampa do tecido, ao lado de uma lista com a descrição de centenas de itens recuperados com nativos, como talheres, garrafas, louças, armas etc. O diário de Sir Franklin teria sido encontrado, e tudo isso teria siso supostamente possível devido a um mapa fantástico, produzido em uma misteriosa sessão espírita na qual uma menina de quatro anos, Wessey Copin, teria colocado o dedo em uma carta náutica detalhada, imediatamente após teria sofrido uma síncope fatal. Essa história circula até hoje em certas publicações que descuidam de suas fontes, mas não fazia parte do relato do capitão McClintock, e não surpreenderia se fizesse parte da mesma estratégia comercial discreta – e talvez inconfessável – de John Murray. Mas isso só seria possível saber depois de comprar o livro, do qual haviam sido estampadas pouco mais de 7.600 cópias[2].

O outro livro pelo qual os leitores ansiavam inauguraria nada menos do que o gênero auto-ajuda, prometendo mudar completamente a vida dos leitores, eliminando a ruína afetiva e financeira, trazendo prosperidade econômica “por meios científicos” a seus leitores. O livro, emblematicamente chamado “Self-Help”, de Samuel Smiles, trazia os exemplos de grandes empreendedores britânicos, como o tio-avô de Charles Darwin, e continua a ser estampado até os dias atuais, com vendas ininterruptas desde novembro de 1859, tal qual o “Origin of Species”.

Diante dessas duas verdadeiras vedetes de capa dura, o editor poderia realizar uma prática comercial pouco virtuosa, de vincular a venda de atacado a produtos “casados”, isto é, garantindo aos livreiros uma cota de livros “quentes” caso eles se dispusessem a levar junto uma parcela de produtos “frios”. Ao que parece, o livro de Darwin era visto como pertencendo a esta segunda categoria. O lançamento em 22 de novembro de 1859 foi, na verdade, uma venda de atacado, diretamente do editor ao livreiro, na qual exemplares eram colocados em exposição de contratos de venda eram selados para entrega posterior. Isso poderia explicas o fato de a venda do livro de Darwin ter excedido os 1192 exemplares em estoque[3]. Isso obrigava John Murray a entregar menos do que os contratos de venda tinham somado. Assim, novos pedidos ficaram sem ser atendidos até que uma nova impressão fosse realizada.

Para desapontamento de muitos dos admiradores de Darwin, não há nenhuma indicação de que os leitores tenham corrido para as livrarias no dia 22 de novembro de 1859 fazendo filas para comprar seu livro, como desavisadamente muitos cronistas afirmam. Darwin introduziu algumas modificações, que devem ter sido meticulosamente negociadas com John Murray para que não houvesse mudanças de paginação. Isso torna a primeira e segunda edições passíveis de confusão, inclusive pelo outro hábito do editor de estampar apenas alguns exemplares com a data correta (1859), enquanto a maioria dos 1250 exemplares foram estampados com a data “1860”, provavelmente como outra estratégia comercial[4].

De qualquer forma, o sucesso em livrarias não pode ser tomado como indicador isolado do conteúdo do livro. De fato, ele tem sido editado e traduzido profusamente desde seu lançamento, inclusive no Brasil. Para ler o prefácio de recente tradução da primeira edição, clique aqui: https://goo.gl/ftjLWr

Para conhecer detalhes técnicos da tradução, clique aqui: https://goo.gl/eWx1wY

[1]             – Os navios possuíam motores a vapor, capazes de ajudar a ganhar velocidade em meio ao gelo, sem depender do vento. Como as caldeiras não poderiam funcionar com água salgada, havia um engenhoso aparato de destilação de água, que produzia também água potável. Tragicamente, o sistema era revestido por chumbo, para evitar corrosão, e não se conhecia ainda a relaçao causal desse metal pesado com a intoxicação que acometeu a tripulação, somando-se às provisões enlatadas, suficientes para três anos, mas que também haviam sido contaminadas por chumbo.

[2]             – O livro foi um sucesso tão grande, que os direitos de edição foram negociados por J Murray, com edições quase simultâneas em outros países, tornando difícil aquilatar o volume total de vendas. Era costume da época colocar a data do ano seguinte nessas primeiras impressões, o que também ocorreu com o Origin of Species.

[3]             – Foram comercializados 1500 exemplares na venda direta a livreiros, enquanto a primeira tiragem fora de 1250 exemplares, com 58 distribuídos a título de cortesia.

[4]             – Uma forma prática de identificar a verdadeira primeira edição, mesmo se com a data 1860, é a de observar o frontspício, que possui um erro tipográfico no título (“Origin of Speceis”), o que deve ter enfurecido Darwin e servido como argumento adicional para introduzir outras pequenas mudanças.

 

 

 

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