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Lactose: novo “veneno” a evitar? (Parte 2 – final)

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Lactose: novo “veneno” a evitar? (Parte 2 – final)

LACTOSE E O SUCESSO EVOLUTIVO DOS MAMÍFEROS

Ao aumentar a eficiência reprodutiva dos mamíferos, o leite dos mamíferos se tornou um alimento precioso e disputado; é fácil notar isso nas prateleiras dos supermercados até hoje, cerca de 200 milhões de anos depois daquilo se pensa ter sido sua primeira aparição no mundo animal. De início, os primeiros mamíferos, que surgiram ainda antes do Jurássico, com registro no final do Triássico, eram pequenos, com cerca de 10 cm e pesavam algo como 50g. Esses pequenos antepassados dos camundongos eram ovíparos, produziam leite e possuíam pelos. Os especialistas acreditam que o leite, no entanto, não possuía lactose,  mas principalmente proteínas, na forma de anticorpos. Nosso leite materno, sobretudo o primeiro produzido após o nascimento, ainda mantém essa característica.

Nos primeiros mamíferos, no entanto, o leite materno seria secretado sobre os ovos, para protegê-los de bactérias e fungos. Não se sabe exatamente quando, mas o leite passou a ser usado pelos filhotes após a eclosão dos ovos como importante fonte de nutrição. O problema passou a ser outro: o desmame, pois essa alimentação criava uma zona de conforto muito cômoda para os filhotes maiores, e esgotava as pobres mães. O desmame era crucial para que se iniciasse um novo ciclo reprodutivo.

Viver com o sustento dos pais é um problema ainda hoje para nossa espécie, pelo menos desde a década de 1950, quando Fellini filmou “I vitelloni”, algo como “os boas vidas”. De lá para cá o problema só piorou, pois quase 62% dos “jovens” italianos entre 18 e 34 anos ainda moram com pelo menos um dos pais. No passado evolutivo, nossos antepassados encontraram uma solução infalível: a lactose!

Trata-se de um açúcar que, ao ser hidrolisado, libera os dois monossacarídeos de mais rápida absorção em nosso intestino. A hidrólise depende, como vimos na primeira parte, da lactase. Se ela for produzida por toda a vida, o problema do desmame estaria presente, mas se o indivíduo produzir lactase por pouco tempo, previsivelmente deixará de consumir leite materno. Se o leite contivesse glicose, o desmame seria muito difícil, pois ela não precisa ser digerida.

No entanto, por conter lactose, o desmame é possível quando o filhote começa a ter dificuldade de digestão desse açúcar. Quando ele não é digerido no intestino delgado ele induz a inversão da passagem de água das células epiteliais, que passam a perder água para o bolo fecal. No intestino grosso se encontram muitas bactérias que conseguem digerir lactose, produzindo ácidos graxos de cadeia curta, gás carbônico e gás hidrogênio. Não é necessário dizer que isso causa desconforto, correspondente à quantidade ingerida. Esses gases acabam se difundindo pelo sangue e a detecção de gás hidrogênio no ar expirado é um dos principais métodos para evidenciar a não digestão da lactose.

Quando nascemos, a maquinaria de nosso DNA produz lactase, mas, com a idade ocorre a desativação dos genes envolvidos na produção dessa enzima. A regulação da expressão desse gene foi um evento crítico para a evolução dos mamíferos e continua ainda desconhecido em seus detalhes. Nos bebês, essa enzima é essencial para tornar a glicose e a galactose prontamente disponíveis. No entanto, quando a criança cresce, ela diversifica sua dieta e passa a ter outras fontes de carboidratos à disposição. Nas famílias onde a amamentação prossegue com a idade, ela atrapalha a encomenda de irmãos mais novos. Assim, inativando a produção da enzima que digere lactose, o filhote é induzido a buscar outras fontes de alimento. É interessante que em alguns mamíferos, como no caso dos cavalos, as mães passam a lamber a boca de seus filhotes pouco antes do desmame. Isso os contamina com as bactérias responsáveis pela digestão da celulose em seus intestinos, presente nas folhas, que passarão a fazer parte de sua dieta.

A INTOLERÂNCIA À LACTOSE: a hipolactasia

A intolerância à lactose em humanos é dita hipolactasia primária quando resulta desse mecanismo natural de desativação do gene que produz a enzima que a digere. Os principais sintomas são dor abdominal e sensação de inchaço no abdome. Dependendo da quantidade de lactose ingerida, esses sintomas se tornam mais intensos e aparecem outros, como diarreia líquida. Quando essa intolerância à lactose ocorre em recém-nascidos ( hipolactasia congênita) configura uma condição extremamente grave, que requer cuidados médicos especiais e urgentes. O recém-nascido apresenta diarréia osmótica, que se manifesta com jatos líquidos, que pode conduzir rapidamente a estado de desidratação. Com dieta restritiva de lactose os sintomas desaparecem e os recém-nascidos têm crescimeto normal. Trata-se de condição genética, com padrão mendeliano autossômico recessivo, e a grande diferença, em relação aos adultos que desenvolvem a intolerância, é molecular, pois neles o gene que codifica a enzima está preservado, enquanto nos recém-nascidos o DNA teve alteração e não é produzido o polipeptídeo com atividade enzimática.

A condição mais comum em humanos é a hipolactasia que se manifesta na vida adulta. Na condição primária, trata-se de fenótipo selvagem e não se deveria pensar ser uma condição patológica. No entanto, essa intolerância pode advir como consequência de algum processo infeccioso ou degenerativo e a hipolactasia é então dita secundária. Doenças que causam danos à mucosa intestinal podem ser o problema primário, como enterites infecciosas, giardíase, doença celíaca, doença diverticular do cólon etc.

Assim, a princípio, a intolerância à lactose seria esperada, se a dieta na vida adulta incluir fontes importantes de lactose. A tabela 1 mostra a quantidade de lactose de alguns alimentos.

Tabela 1 – Quantidade relativa de lactose em alimentos lácteos

Tabela 1 – Quantidade relativa de lactose em alimentos lácteos

Uma vez determinada a existência de intolerância, o médico deve excluir a possibilidade de ser condição secundária. Passa-se então a restringir alimentos com lactose, de início totalmente, mas voltando a incluir leite e derivados de forma gradativa, buscando determinar o limiar de tolerância.

OS MUTANTES: adultos tolerantes à lactos

Em humanos, acredita-se que as populações que se deslocaram para o norte da Europa passaram a ter problemas com a falta prolongada de sol nos dias de inverno, o que trazia problemas ósseos (raquitismo). A agropecuária, há algo como 10.000 anos atrás, passou a tornar disponível o leite de fêmeas de animais de criação. O processamento do leite, e a produção de laticínios, tem a propriedade de diminuir a quantidade de lactose. A mussarela, por exemplo, é praticamente isenta desse açúcar (v. Tab.1) . Populações que desenvolveram a pecuária poderiam, a princípio, se alimentar de laticínios na vida adulta, inclusive como importante estoque de alimento em períodos de baixa disponibilidade de outras fontes de nutrição.

Essa proximidade com e leite e seus derivados deve ter suprido de cálcio, além de outros nutrientes, como proteínas, as populações que enfrentavam problemas de raquitismo. O fato é que as populações de algumas localidades, como o norte europeu, desenvolveram um “defeito” em sua maquinaria enzimática, pois a produção de lactase não mais se interrompe com o desmame e se prolonga por toda a vida. Essas populações estão, hoje, dominadas por esses indivíduos “mutantes”, que podem se alimentar com altas doses de lactose por toda a vida. Os que mantiveram a característica original, e desenvolvem a hipolactasia primária, estranhamente, são tidos como “doentes”, quando são, na verdade, os “normais”, a condição natural antes do início da pecuária. É interessante perceber como a tribo Béja, sudaneses pecuaristas, desenvolveram a tolerância `a lactose, ao passo que a tribo Nilotes, de sudaneses agricultores, mantiveram a intolerância nos adultos. A tabela 2 traz a distribuição da ocorrência da hipolactasia primária em diferentes populações do mundo.

Tabela 2– Prevalência da hipolactasia primária em grupos humanos

Tabela 2– Prevalência da hipolactasia primária em grupos humanos

Existe, na verdade, um verdadeiro gradiente na Europa, pois as populações originais do nordeste daquele continente, na região da Escandinávia, apresentam em torno de 5% de hipolactasia, ma sua prevalência vai aumentando na direçao do centro-sul para chegar próximo dos 100% na Ásia e Oriente Médio.

Portanto, a condição grave da hipolactasia é a que acomete bebês; em adultos ela pode ser manifestação normal, que demanda observar a quantidade de alimentos lácteos a fim de evitar sintomas. A supressão total de leite e derivados não é aconselhável, pois priva-se o organismo de uma fonte de importantes nutrientes, minerais e orgânicos. Finalmente, as pessoas que toleram a lactose, os “mutantes”, só têm razão para comemorar, os “normais” que se cuidem com o leite!

Fonte: MATTAR, R. D. F. C. MAZO. Intolerância à lactose: mudança de paradigmas com a Biologia Molecular. Rev. Assc Med Bras 56(2): 230-6, (2010).

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