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ENEM 2015: Uma questão problemática

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ENEM 2015: Uma questão problemática

A questão 47 da prova do primeiro dia do ENEM 2015, referente a Ciências da Natureza, trouxe uma questão que merece análise aprofundada por parte dos professores de Biologia. Vejamos:

 

ENEM_2015_47_microquimerismo

 

Os cursinhos provavelmente receberão bem essa questão, pois tem nível de exigência baixo, com alternativas absurdas, o que permitiria inclusive acerto sem leitura do texto. No entanto, me permito uma opinião muito distinta, como educador. Inicialmente, cabe observar que as alternativas erradas (tecnicamente chamadas “distratores”) têm construção infeliz, pois apresentam termos rebuscados e terminologia pretensamente técnica, construindo uma lamentável caricatura da ciência. Elas incluem afirmações absurdas, o que contraria as regras básicas de construção de distratores, mas permitem economizar tempo com técnicas ensinadas pelos cursinhos.

O mais importante: trata-se de uma questão incomum, que aborda um fenômeno ainda sem uma explicação consensual na comunidade científica. A presença de células do embrião no sangue da mãe não é novidade, mas não se imaginava que esse fenômeno fosse importante a ponto de influenciar procedimentos de transplante de órgãos, como a prática médica tem revelado. Algumas mulheres que recebiam órgãos de doadores masculinos inexplicavelmente não apresentavam sinais de rejeição com a intensidade esperada. O recente desenvolvimento de sondas moleculares para segmentos de DNA exclusivos do cromossomo Y confirmou o microquimerismo de células fetais na mãe. No entanto, como diz o texto ao final, a troca é bidirecional e não apenas do feto para a mãe.

Ao comentar essa questão com seus alunos, sugiro que o professor reafirme a função da barreira placentária, relembrando, por exemplo, a explicação da eritroblastose fetal e a razão de o problema ser previsto apenas para a segunda gravidez. Em seguida, pode assegurar que se trata de um fenômeno pouco conhecido, havendo três hipóteses em discussão para explicá-lo. No entanto, sua compreensão envolve o conhecimento muito detalhado das estruturas da placenta, em especial do sincício (tecido polinucleado) formado pelas células do trofoblasto. Uma das hipóteses supõe que a ocorrência de lesões na placenta possa provocar pequenas hemorragias, que resultariam no contato do sangue do feto com o da mãe, o que normalmente não ocorre de maneira significativa. O primeiro relato da presença de células do embrião na circulação sanguínea da mãe foi feito em 1893, pelo médico alemão Christian Georg Schmorl (1861-1932), que encontrou trofoblastos nos capilares sanguíneos de uma gestante. É bem conhecida, desde a década de 1970, a presença de células de diversos tipos, provenientes do feto, no sangue da gestante, o que permitiu desenvolver uma série de exames pré-natais não invasivos, cultivando células do embrião a partir de pequenas coletas de sangue da mãe. Há testes que permitem determinar o sexo do bebê a partir das primeiras semanas de gravidez, justamente com o emprego de sondas específicas de DNA do cromossomo Y. Há de 2 a 6 células embrionárias por mililitro de sangue materno durante a gravidez, mas a grande maioria dessas células, no entanto, não sobrevive no organismo materno. Como são células embrionárias, elas podem estar envolvidas no reparo de lesões de tecidos da mãe, o que explicaria o microquimerismo em certos órgãos, como coração que sofreu infarto. Já as células da mãe que passariam para o sangue do feto também seriam, como regra, destruídas, mas poderiam ter destino muito distinto, em especial em crianças com problemas de imunidade. Esses assuntos são atualmente tratados em congressos de imunologia e não nas salas de aula do ensino médio.

Além disso, a questão induz a crença de que o microquimerismo de células fetais e a transmissão horizontal de informação genética constitua um novo paradigma da Biologia, tornando obsoleto o entendimento usual, um “princípio” que teria sido “quebrado”. Na verdade, apenas se confirmou a possibilidade de uma exceção a uma regra geral, e, de fato, dos trilhões de células que constituem o organismo humano, algumas podem ter origem no organismo da mãe – e mães podem ter algumas células de seus filhos e filhas. Mas essa informação deve ser devidamente aquilatada, sem confundir microquimerismo, quimerismo (que é um fenômeno de origem e escala diversa) e a regra geral, que continua válida.

Um exame como o do ENEM deve se restringir a examinar o conhecimento das ciências naturais que fazem parte do currículo da educação básica. Ao expor um assunto que colide com a ideia da barreira placentária que é trabalhada no ensino médio,se induz uma ideia errada, de que há livre trânsito de células entre a mãe e o feto, e que as células do organismo humano não são, como regra, originárias do zigoto, o que atrapalha a aprendizagem de Genética. Essa matéria pode ser própria para um blog de um jornal, que procura chamar a atenção para fatos inusitados, curiosidades etc., mas se se pretende que o ENEM tenha uma contribuição formativa, deve-se ter o cuidado de selecionar contextos e conteúdos próprios da educação básica, trabalhando as regras gerais, os conceitos mais amplos e bem conhecidos, e não as exceções, as particularidades, os fenômenos pouco conhecidos, para os quais ainda não há uma explicação consensual na prórpia comunidade científica. Não se deve confundir divulgação científica com educação básica e o ENEM, nesta questão, presta um desserviço à melhoria da qualidade da educação de nosso país, induzindo milhões de pessoas a desenvolver uma concepção errada do que seja a placenta humana e sua função e a transmissão das informações genéticas entre gerações.

Sugiro a leitura do texto original, destinado à divulgação científica, que é, de fato, muito interessante:

http://g1.globo.com/platb/espiral/2010/07/05/voce-nao-e-so-voce-carregamos-celulas-maternas-na-maioria-de-nossos-orgaos/

A leitura de um artigo publicado há algum tempo na revista Science traz uma boa ideia das possibilidades do emprego do microquimerismo de células fetais para exames pré-natais não invasivos, já disponíveis no Brasil:

http://www.prenatalgeneticscenter.com/wp-content/uploads/science_article.pdf

 

 

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