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O que todo professor de biologia deveria saber sobre maconha – parte 2

Categoria: Ciência

O que todo professor de biologia deveria saber sobre maconha – parte 2

Caso não tenha lido a primeira parte do artigo, confira, aqui.

USOS E ABUSOS DA MACONHA

Estima-se que metade as pessoas entre 16 e 29 anos do Reino Unido já tenham experimentado a maconha em algum momento de suas vidas, e um conjunto de pesquisas tem revelado que ela pode causar problemas muito sérios pelo menos em um grupo de pessoas com especial vulnerabilidade. No Brasil, o Segundo Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), referente ao ano de 2012, apurou que cerca de 7% dos brasileiros entre 18 e 59 anos já fumaram maconha, o que perfaz cerca de 7,8 milhões de pessoas.

A ideia de que o consumo recreativo da planta seja inofensivo é errada, embora campanhas que exageram os riscos da maconha não ajudem a difundir uma correta compreensão dos riscos associados a seu consumo. Há evidências consistentes de que o uso de Cannabis esteja ligado ao desenvolvimento de psicoses, em especial por jovens com certa predisposição inata. Estudos com todo o rigor científico demonstraram que os jovens que começaram a consumir maconha antes dos 15 anos tiveram probabilidade quatro vezes maior de desenvolver esquizofrenia, e que a probabilidade aumenta em proporção direta com a quantidade consumida. Não se sabe ao certo ainda a razão do uso da maconha ser mais perigoso entre os adolescentes, mas se acredita que isso esteja ligado ao fato do cérebro estar ainda em formação. Estudo recente realizado na França sobre o efeito na direção de veículos revelou que os usuários de Cannabis têm probabilidade mais do que dobrada de serem responsáveis por acidentes fatais e que há relação direta entre a quantidade consumida e o risco desses acidentes.

Devido a seu alto preço, a planta toda é utilizada no mercado ilegal, uma vez que as folhas também exalam o odor característico, embora não possuam efeito psicoativo. Isso dificulta uma correta avaliação pelo público leigo dos efeitos da maconha, pois há usuários que, na verdade, consomem muita maconha, mas pouco princípio psicoativo (e mesmo assim desenvolvem dependência!). As variedades oferecidas nesse mercado têm quantidades de THC que variam entre 1 a 15%, mas a variedade “sinsemilla” (“skunk”) pode ter até 20%, causando efeitos mais rapidamente, como euforia, mas sucedidos por efeitos desagradáveis mais intensos, como náusea. Ao contrário do que se pensa, o haxixe não é uma forma industrial de maconha, da qual se extraiu artificialmente as substâncias que lhe dão odor, mas um produto de produção artesanal, que pode ser obtido facilmente, esfregando cachos de inflorescências femininas entre as mãos. Com isso, as estruturas glandulares são rompidas, os óleos essenciais são vaporizados, e a resina adesiva, quase sem o odor típico da planta, começa a se endurecer nas palmas da mão, agregando todo tipo de fragmentos, como pequenas porções das folhas, sujeira, etc, ou mesmo tabaco, por vezes salpicado na massa adesiva, que é reconhida. O teor de THC do haxixe pode chegar a 30%, o que é ainda mais elevado do que no “skunk”. Os restos dessa maceração com as mãos raramente é descartada, sendo prensada para comercialização.

A ideia de que a maconha seja menos viciante do que o tabaco é enganosa, sendo comparável a ele. Além disso, a Cannabis tem a típica relação de causa de dependência, ou seja, o consumo de uma mesma quantidade faz diminuir seus efeitos (tolerância), o que leva o usuário a buscar aumento do consumo a fim de ter o mesmo efeito. Como já mencionado, o THC tem o poder de potencializar o efeito de outras drogas, inclusive lícitas, como o álcool, o que pode contribuir para o desenvolvimento de dependência de outros produtos viciantes.

Pesquisas indicam que o outro canibinoide associado ao THC, o CBD, que não tem efeito psicoativo, e tem aquelas propriedades que interessam a indústria farmacêutica, que começa agora a cultivar plantas capazes de produzir altos teores de CBD, e baixos teories de THC, invertendo a seleção realizada pelos agricultores durante milênios. Testes in-vivo têm demonstrado que o CBD, devido a suas propriedades anti-inflamatórias especiais, pode ser útil no tratamento de danos cerebrais, tanto em casos de traumas causados por acidentes como em casos de recém-nascidos em partos difíceis, nos quais houve falta de oxigênio por período prolongado. Outros estudos, mais recentes, demonstram que esse canabinoide é muito ativo no combate a certos tipos de câncer, em especial o câncer de mama, inibindo a criação de irrigação sanguínea em tumores e sua difusão para outros locais (metástase).

A produção desses canabinoides foi estudada e é regulada por um par de alelos que se comportam como genes codominantes. As plantas homozigotas para produção de THC têm sido selecionadas pelos agricultores durante milênios. Assim, as plantas de Cannabis cultivadas hoje em dia produzem muito THC,sendo variedades com alto poder psicoativo, compostas tanto por variedades homozigotas como heterozigotas. Recentemente teve início uma seleção contrária, buscando plantas homozigotas para produção de CBD, o que interessa particularmente aos pesquisadores de novos remédios (mas não aos traficantes!).

Outro canabinoide pouco conhecido, mas que está na mira da indústria farmacêutica, é o THCV (delta-9-tetraidrocanabivarina), estruturalmente similar ao THC, mas com apenas três átomos (em vez de cinco) em seu esqueleto carbônico. Embora muito semelhante àquela substância psicoativa, ela não estimula o apetite como o THC (a chamada “larica”, ou “munchies” em inglês), mas, ao contrário, o THVC inibe o apetite. Estudos pré-clínicos indicam que é uma droga com grande potencial no combate à obesidade e à diabete tipo II, sem os efeitos colaterais de inibidores de apetite da classe das anfetaminas, como femproporex, mazindol e anfepramona, e a sibutramina.

FUTURO DA MACONHA

A proibição da maconha esteve acompanhada de campanhas nebulosas nos anos 1920-30, período em que se pretendeu proibir até mesmo o consumo de álcool nos Estados Unidos. Houve uma sobreposição de fatores médicos, políticos e econômicos, sendo que aparentemente os primeiros foram os de menor importância. Ainda hoje muitas pessoas confundem o cânhamo com a maconha e alegam que sua proibição ocorreu por conta da guerra de fibras têxteis, que a nascente petroquìmica implantou naquela época.

No passado estivemos ligados a três convicções sobre a maconha, no mínimo discutíveis. A primeira delas aponta a maconha como um “doce veneno” muito perigoso, que pode levar à morte. A maconha faz mal, sem dúvida, sobretudo para crianças e adolescentes, e é perigosísima para pessoas com predisposição para surtos psicóticos. Mas, para muitos adultos, ela não é tão perigosa e, para algumas pessoas, com doenças neurodegenerativas, ela é benéfica e tem prolongado a expectativa de vida dessas pessoas. A overdose de maconha, ao contrário da de outras drogas, inclusive o álcool, não leva à morte.

A segunda convicção é a de que as pessoas utilizam a maconha por conta de certa “falta de vergonha”, algo como uma falha moral. Se bem que seja verdade que pessoas possam recorrer à maconha para fugir de problemas, como outras o fazem recorrendo ao álcool, por exemplo, há pessoas que necessitam dela por razões médicas, algumas muito graves, outras nem tanto (como certas condições psiquiátricas, como casos de epilepsia), e outras pessoas ainda recorrem a ela para relaxar ou simplesmente sentir sensações boas, sozinhas ou em grupo. Em nenhuma dessas situações pode-se dizer que deixar de recorrer à maconha faria da pessoa alguém moralmente mais respeitável, a não ser pelo fato de ela deixar de desrespeitar uma norma, e isso nos remete à terceira conviccção: apenas com a proibição total podemos resolver o problema do abuso da maconha.

A ideia de que as pessoas são “fracas” e que não resistem a tentações está profundamente arraigada na mentalidade cristã e esteve na base da proibição total do álcool nos Estados Unidos no início do século XX. Nem naquela época, nem nos dias de hoje, a proibição não só não resolveu os problemas do abuso das drogas, como o álcool e a maconha, como criou outros muito piores. Os gangsters e o crime organizado são produto direto desse tipo de posicionamento, no qual se estimula, na verdade, um mercado subterrâneo e criminoso, este sim, ligado a uma escalada de crimes, ligando tráfico ilegal de capitais, drogas, armas e terrorismo.

O consumo de pequenas quantidades de maconha e o cultivo pessoal com finalidades recreativas é agora permitido em alguns estados dos EUA, como no caso do Colorado e de Washington, no extremo noroeste do país. A Espanha permite o registro de “clubes sociais de maconha”, onde um grupo de pessoas obtêm permissão para consumir pequenas quantidades da planta. Na Holanda, desde 1976 há “cafés” que vendem maconha de maneira controlada e seu consumo ao ar livre, embora proibido, é tolerado em certos lugares. A nova lei uruguaia prevê o controle do comércio da maconha pelo estado, o que não existe em nenhum lugar do mundo, que venderá em farmácias diretamente ao consumidor pequenas quantidades de maconha. Ainda não implementada, a lei sofre forte oposição da opinião pública local, que teme transformar o Uruguai em local de turismo de viciados, sem deixar fora de dúvida se essa normatização enfraquecerá os negócios dos traficantes ilegais.

A indústria farmacêutica possivelmente poderá ajudar a modificar a aura que se criou sobre a maconha. Hoje já há sentenças judiciais no Brasil que determinam a importação de Sativex, que pode ser exportado para cá, embora não possa ser vendido em farmácias, mesmo com receita médica (que não pode ser aviada!), pois não tem a aprovação das autoridades médicas.

Com o tempo essas experiências, e possivelmente outras, dirão se, de fato, a maconha pode mesmo auxiliar a humanidade de alguma maneira, seja provocando apenas euforia, ou mesmo combatendo doenças e aliviando sintomas, em vez de simplesmente criar mais doentes.

 

VERDADES E MENTIRAS SOBRE A MACONHA

 

MACONHA NÃO FAZ MAL

Mentira. A maconha faz mal, principalmente para crianças e adolescentes, mas também para adultos. Aumenta o risco de infarto do miocárdio em quase cinco vezes na hora seguinte ao uso, traz problemas para a memória, principalmente se utilizada na adolescência e provoca problemas respiratórios. Quando se retém a fumaça prolongadamente no pulmão, não se aumenta o teor de psicoativo inalado, mas sim o de outras substâncias, como o monóxido de carbono. Não é à toa que na forma de remédio ela deve ser aspirada como um spray, e não fumada. Qualquer coisa dentro de uma folha de papel que produza fumaça faz mal se inalada, mesmo utilizando dispositivos como narguilés.

MACONHA VICIA

Verdade, embora vicie menos do que o tabaco. Ela tem a dinâmica típica das drogas viciantes, pois o consumo de uma mesma quantidade faz diminuír seus efeitos, o que leva o usuário a aumentar a dose. Nove por cento das pessoas que consomem maconha o fazem regularmente e se tornam dependentes. Quando o consumo se inicia na adolescência, o risco praticamente duplica, mas mesmo assim, é quase a metade do risco apresentado pela nicotina.

A MACONHA LEVA A OUTRAS DROGAS

Mentira. Embora ela potencialize o efeito de outras drogas, inclusive lícitas, como o álcool, não há evidências de que seu uso tenha como consequência fisiológica a busca de outras drogas. O vínculo que pode haver deriva do fato de um mesmo traficante oferecer diferentes drogas aos consumidores. É frequente que pessoas que consomem cocaína, heroína, etc, terem se iniciado com a maconha, mas isso provavelmente deriva do fato de ela ser mais barata e disponível.

MACONHA PODE CAUSAR ACIDENTES DE TRÂNSITO

Verdade. Estudos recentes demonstram prejuízo importante na avaliação de riscos aumenta de acordo com a dose consumida. Pessoas que consomem maconha, mesmo por finalidades medicinais, não devem dirigir sob seu efeito. Em casos de drogas anestésicas essa recomendação se estende inclusive para o dia seguinte. O consumo de álcool leva a aumento ainda maior do risco de acidentes.

Bibliografia de referência:

ALVAREZ, F. J. Neuroprospective effects of the nonpsychoactive cannabinoid cannabidiol in hypoxic-ischemic newborn piglets. Pediatric Research 64(6): 653-8 (2008).

BURGIERMAN, D. R. Uma história simples e errada. Superinteressante (número especial “A Revoluçao da Maconha”), Julho: 46-7, (2014)

McAllister et al. Pathways mediating the effects of cannabidiol on the reduction of breast cancer cell proliferation, invasion and metastasis. Breast Cancer Research Treatment 129: 37-47 (2011).

PLOTER, D. Flower power. The Biologist 59(2): 14-18, (2012).

ROYAL COLLEGE OF PSYCHIATRISTS. Cannabis and Mental Health (2014) [disponível em: http://www.rcpsych.ac.uk/healthadvice/problemsdisorders/cannabismentalhealthkey.aspx, acesso em julho/2014].

SATIVEX, [http://www.gwpharm.com/Sativex.aspx, acesso em julho/2014].

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