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Baiacu: Com apenas quatro dentes e tão perigoso!

Categoria: Animais

Baiacu: Com apenas quatro dentes e tão perigoso!

Das onze pessoas internadas depois de comerem postas de baiacu, em Campos Elíseos, Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, seis ainda continuam sob cuidados médicos, segundo as secretarias de saúde municipal e estadual. De acordo com parentes das vítimas, nenhuma delas conhecia o peixe servido. Os pedaços, que já vieram limpos, foram temperados e preparados por Luciana Gonçalves, de 22 anos, que ainda está em observação no Hospital Municipal Doutor Moacyr Rodrigues do Carmo.— O peixe já chegou limpo, minha esposa temperou e preparou o peixe. Era uma posta bem carnuda, quase em espinhas. Quando todos estiverem bem vamos marcar um churrasco. Nada de peixes tão cedo — diz Maciel Rodrigues, de 29, que já foi liberado.

“Os pescadores de costões rochosos têm uma espécie de código de conduta que permite fazer uma gozação quando o peixe pescado é um baiacu, um peixe de hábitos muito esquisitos, que desestimulam predadores mais vorazes a comê-lo. Ele se infla, tornando-se maior do que a boca de muitos deles; adicionalmente, algumas espécies têm a pele recoberta de espinhos, mas o mais importante não é aparente: eles têm um potentíssimo veneno, a tetrodotoxina (uma neurotoxina conhecida pela sigla TTX). O peixe que o abocanhar, com certeza, se arrependerá poucos minutos depois. Mas os peixes dessa família, chamados tetrodontídeos[1], nome que indica a presença de quatro dentes, que inclusive deu o nome à toxina, são uma fina iguaria na Coréia e no Japão, onde há indicações que seu consumo ocorre há pelo menos 2.000 anos. Para preparar em um restaurante o fugu, como é lá chamado, o cozinheiro precisa de uma licença parecida com a de aviador, tamanha a responsabilidade envolvida. A toxina se concentra nos olhos e no fígado do peixe, que devem ser removidos com todo cuidado.

Mas o que intrigava os cientistas era o fato de essa toxina, que tem uma estrutura química bastante complexa (sua fórmula química é C11H17N3O8) e uma potência incrível[2], ser encontrada em organismos os mais diversos, além desses peixes, em salamandras,, sapos da Amazônia e de Bangladesh, certos polvos, algumas estrelas do mar e caranguejos. Outro dado interessante foi o de que os baiacus, quando criados em ambiente isento de bactérias, e com ração controlada, não apresentam a toxina. A descoberta de que algumas bactérias produzem essa toxina (ou uma variante muito parecida) resolveu a charada. Diversas espécies dos mais diferentes animais se alimentam de outros animais, os quais se alimentam de outros animais nos quais essas bactérias vivem associadas, o que acaba por concentrar essa toxina em seus organismos. Os tetrodontídeos têm uma dieta variada, que inclui pequenos moluscos e crustáceos os quais ou vivem associados a essas bactérias produtoras de TTX ou se alimentam de tais animais. Ela simplesmente provém da dieta dos bichos, que “apenas” tiveram de desenvolver meios de lidar com ela. Na natureza, sobreviver significa viver perigosamente…

A fórmula para produzir a tetrodotoxina parece ter passado de um tipo de bactéria para outra, naquilo que se chama de transferência genética horizontal (HGT, na sigla em inglês), extremamente comum em bactérias, mesmo de espécies diferentes. Como dito anteriormente, além de se tornarem íntimas de muitos animais, elas não são santinhas e praticam sexo inclusive com espécies diferentes, o que pode nos chocar moralmente, mas lhes confere uma vantagem evolutiva fantástica e explica, por exemplo, a rápida disseminação da resistência a antibióticos.”

Para Saber Mais:

Leia mais: http://extra.globo.com/noticias/rio/apos-ter-alta-homem-que-levou-baiacu-para-familia-comer-afirma-se-soubesse-que-tinha-esse-peixe-nem-tinha-levado-14348126.html#ixzz3HSoVcMNr

e

BIZZO, N. O Ensino de Ciências e os Erros Conceituais: reconhecer e evitar. São Paulo: ed. do Brasil (2012), p.127-129.

[1] A família Tetrodontidae é constituída de cerca de 120 espécies, distribuídas pelos mares do mundo, e nem todas são tóxicas.

[2] A tetrodotoxina é 1200 vezes mais letal do que a mesma dose de cianureto, tido como veneno potente. A dose suficiente para matar um homem adulto, de 70 kg, situa-se ao redor de um milésimo de grama (bem mais do que a toxina botulínica, mas que não lhe tira a fama de veneno extraordinário).

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